quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sobre amor, lavadora e pétala de flor

Durante muitos anos vi muita gente indo embora, seja pra outra vida ou pra outro espaço físico. Vi muito namorado deixando namorada, e vice-versa; vi pais deixando filhos, vi amigos deixando seus maiores confidentes, vi passarinho saindo de gaiola e vi muita criança arrumando mala e fingindo que ia fugir de casa. Em compensação, também vi muitas voltas.

Dizem que ''o quê os olhos não vêem, o coração não sente'', eita ditado lascado! Queria dizer que aqui pros meus lados isso não funciona. Meu coração é esquisito e, mesmo não vendo, se sente aflito. A dor começa lá no fundo e de algum modo sobe pelas veias e rodeia a cabeça, desce no estômago e causa aquela sensação horrível de ter uma lavadora dentro da barriga, revirando tudo o que tem direto. Não é fácil pra quem fica, apesar de ser o certo e de eu ter feito isso novamente, não fácil deixar quem você gosta ir embora.

Confesso que já tive umas paixonites aí na vida. Pensando melhor agora, acho que a vida inteira, desde menina, nunca tive traços de uma pessoa que futuramente ficaria com muitas pessoas ou fosse conseguir ser desapegada. Sempre tive paixões longas, mas que nunca resultaram em nada sério. Os meus sentimentos sempre tiveram prazo de validade, determinado pela pessoa, que quando encontrava outro indivíduo que era mais tampa da panela, apenas me deixava com os resquícios do que era pra ser - algumas coisas nunca mudam.

Meu primeiro amor surgiu quando eu ainda era muito pequena, ele tinha cabelos claros e os olhos de um verde folha. Andávamos juntos, estudávamos na mesma escola e brincávamos de escalar a porta, eu era mais ágil, ele era muito magro, mas me lembro de sentir muitas saudades quando me mudaram de escola e eu nunca mais o vi. Então cresci. Me lembro, então, de um tal de "Tony", da escola seguinte, eu devia ter uns seis anos. A imagem cravada na minha memória é de um menino um tanto quanto animado, no sentido de desenhado, e acho que teria medo de revê-lo hoje.Tony me lembrava os vilões do cartoon network.

As mudanças sempre fizeram parte da minha vida, outra conclusão que entendo agora, quando estava aqui, feliz,  sempre me mandavam para lá, e assim foi quando meus pais resolveram que era hora de retornar ao interior. Me apaixonei pelo menino mais velho da minha rua. Ele era magro, loiro e um tanto quanto ríspido. Ele sabia que eu gostava dele e, por esse motivo, me esnobava - daquele jeito de menino novo, quando pensa que sabe das coisas-, eu já tinha uns dez ou onze anos. Gostei dele por uns três anos e então mudei de escola novamente. Eu o esqueci depois de muito custo e algum tempo depois ele voltou, mas a parte do "mau me quer" já aparecia na flor que eu segurava na mão. O tempo passou muito rápido, nessa altura eu já chorava em sala de aula, infeliz com minha aparência. Quando percebi, já estava no oitavo ano, e perdidamente apaixonada pelo menino mais popular da escola, que tinha sua própria banda(uau!) e que todas as meninas almejavam. Ele me quis, mas também quis minhas amigas, fui enganada e trocada. Entendi que era paixão boba depois que consegui perdoar minhas amigas, mas fiquei uns três anos ruminando as músicas do Tianastácia. Ele também voltou em uma festa de quinze anos e algum tempo depois por meio de comentários com amigos, mas eu já não gostava muito do jeito que ele balançava a cabeça quando tocava guitarra. A vida é engraçada.

É válido ressaltar que todas as vezes que gostei de alguém, a pessoa era relacionada com alguma banda ou algum esporte, e juro, foi sempre sem querer, mas eu realmente gosto das duas coisas, e isso acabava aumentando os pontos dessas pessoas e os motivos para manter o meu "bem querer". Foi então que voltei para a capital de Minas, passei no vestibular, fui para meus rocks e conheci o skatista "da minha vida". Já tinha passado por todas essas experiências, em certa medida, traumáticas, de gostar de poucas pessoas, mas por um longo tempo, e ainda fiquei um ano xonadinha por ele. Veio o skate, mas junto veio também um terremoto. Acho que quando crescemos, ficamos mais bobo para certas coisas. No meu caso, esse é o meu "ponto idiota" da vida. 365 dias pensando que ''amava'' uma pessoa que eu acreditava ser a ideal, simples e puramente por ter características físicas que me agradavam. Fui forte e depois de tanto sofrimento e de ter perdido, ridiculamente, parte da minha personalidade e auto-estima, consegui por um ponto final na história. Não era amor, era ci-ci-la-da.

Mas como você bem deve saber, coração dilacerado não nega remédio pra ferida. Então fui pra praia, em pleno carnaval, e acredito que devido ao tamanho da minha decepção, me "apaixonei" pela pessoa mais avessa do mundo. Carioca da gema, bombado, sem camisa e cheio dos XXXxxxxX nas palavras, o coração era bom, mas o sentimento era passageiro, e disso eu bem sei. Deixei que ele alimentasse meu ''sentimento'' por uns seis meses, mas também consegui me livrar da sensação de estar gostando mais rápido do que eu imaginava, não sofri. Não era paixão, não era nada. Ele sumiu, mas agora voltou, como as outras pessoas também voltaram.

Fiquei um bom tempo de coração livre, andando por aí, soltando os coretos nas baladas, mas cansei. Sentei um dia em uma praça e entendi que o que eu sempre quis na vida toda era ter alguém, mas naquela altura eu já não tinha muita fé. Na verdade, eu só tinha esperança de conseguir meu ingresso pro show do Paul, pra eu poder cantar um "hey jude, don't be afraid!(...) na na nan na na naaaaaaa". Foi aí que aconteceu a coisa estranha: conheci a melhor pessoa em dia comum, num sol bem bonito e depois de chorar mil vezes por um preço que já era justo. Eu poderia descrever cada detalhe daquele instante aqui, mas sabe quando eu disse lá em cima da dor que começa no fundinho do peito? Pois é. Só posso escrever aqui que tive um sentimento muito bom, que nem sei como nomear ou descrever. Durante uns 8 meses, me senti muito bem mesmo e muito segura, consegui juntar os  caquinho do terremoto e montar tudo de novo. Ainda estou bem, apesar de uma parte estar meio chateada, pois quem dava vida, sentido e forma pra esse sentimento sensacional que eu senti...#partiu. Porém, apesar da angustia, vendo todas essas partidas e todas essas voltas, pela primeira vez eu fico torcendo fervorosamente para que de fato haja uma volta boa e sem a existência da frase "tarde demais". Mas esse querer, ao mesmo tempo que me deixa animada, me faz ter um medo gigante, o qual preenche todo o meu corpo só de pensar nos próximos dias inteiros que compõem o ano, sem falar na incerteza, que assola minhas prévias de sono.

Gostaria voltar a opção de eu mesma poder mudar. Sim, mudar de lugar, de casa, de estado, de país ou de qualquer coisa, como aconteceu tantas vezes durante esses meus vinte e dois anos. Sinto que esse é um dos pontos mais difíceis que devo lidar nesse ano - o qual almejo melhorar minha vida em diversos âmbitos. Não tenho sofrido, mas as vezes sinto a dorzinha espetando.Existem coisas que só a gente pode fazer, mas em compensação, em algumas outras, infelizmente, só o tempo que consegue ajeitar. Portanto, entendo que além de escrever, o que posso fazer agora é esperar que a dor se transforme em força, a lavadora pare de funcionar e que a última pétala da minha flor seja de "bem me quer", ao menos dessa vez.

Me sinto uma idiota ao escrever tudo isso, mas me sinto bem melhor também.